Esse é o segundo texto de formação que vem para o Nuestro Blog. Estávamos com a idéia de colocar "O direito à literatura" de Antônio Candido. Como não temos ele virtual e ele é enoooorme, não justifica digitarmos ele todo, sendo que já inventaram o xerox... Por isso, o texto do Candido vai pra nossa biblioteca. Não percam a oportunidade de ampliar o universo cultural prórpio, o texto é excelente!!!
Sobre o texto que está sendo postado hoje, aí vai um pequeno trecho: "A CULTURA LIBERTA. TRAZ MAIS OPÇÕES A QUEM A VIVENCIA". Achei pertinente colocar esse texto, pois mostra mais um ponto de vista a favor da nossa tão falada "Ampliação do Universo Cultural".
Cultura que transforma
Renato Janine Ribeiro
Renato Janine Ribeiro
Há muitas definições de cultura, mas gosto de trabalhar com uma em especial: a cultura efetua uma transformação na vida das pessoas (ponto 1) no sentido de ampliar seu leque de escolhas e, assim, de aumentar sua liberdade (ponto 2). Isso significa que não há uma substância chamada "cultura" e portanto o que é cultura para uma pessoa, pode não o ser para outra. O importante, então, é que também não há uma acumulação de cultura, pela qual alguém se torna dono dela, ou seja, possui "mais" cultura do que outro indivíduo.
Mais ainda, e paradoxalmente, uma pessoa "culta" talvez tenha menos chances de viver a cultura do que uma pessoa inculta. Para quem freqüenta museus, cinemas, teatros, o grau de novidade de uma obra cultural, a mudança que ela lhe proporciona, pode estar perto de um grau zero. É como se estivesse esgotando sua capacidade de ampliar enfoques – enquanto uma pessoa virgem em cultura pode ter um vasto território a expandir. Daí que numa política cultural é importante visar os primeiros, os "cultos", entre os quais eu incluiria boa parte dos criadores e dos freqüentadores da cultura mais influentes na alocação de recursos. Mas o realmente crucial é privilegiar aqueles – as massas, hoi polloi, como diriam os gregos antigos e os ingleses atuais – que até agora tiveram pouco acesso às obras e podem extrair mais delas.
Esta definição de cultura pelo "efeito" que ela tem na vida das pessoas enfatiza seu caráter fortemente libertador, ao mesmo tempo em que reduz a importância de uma hierarquia das obras "em si". Na verdade, as obras valem pelo que produzem ou propiciam a seus usuários. Por isso, o cultural desempenha um papel relevante na vida social. Há um caso em particular que sempre me chama a atenção. Na Irlanda do Sul, fortemente católica, quando se deu a independência do Reino Unido, eliminou-se da vida pública qualquer referência ao homossexualismo. Disso resultou que rapazes que não gostavam de moças só podiam imaginar que tinham uma vocação sacerdotal. Disso, por sua vez, decorreu que, passado algum tempo, eles abusassem sexualmente dos meninos a quem supostamente educavam. Esse é um exemplo terrível de como as limitações culturais escravizam e infelicitam as pessoas – e, inversamente, de como uma abertura para o horizonte, a possibilidade de viajar imaginariamente para experiências que estão geograficamente longe de nós, nos emancipa.
O acesso à cultura, assim, não consiste apenas em mais pessoas visitarem museus ou assistirem a peças ou filmes. Ele significa mais pessoas terem uma experiência intensa de ampliação de perspectivas pelo contato com o que é diferente. Dançar, para um pé de pau; ver um quadro, para quem nunca apreciou o jogo das cores; ler, para quem jamais desfrutou um livro, podem ser revolucionários. A questão não é quantitativa, meramente numérica. É de um valor que se agrega, sim, mas que consiste em qualidade. E essa qualidade se resume numa palavra: maior liberdade. A cultura liberta; traz mais opções a quem a vivencia.
Por isso a cultura tem um papel-chave na vida democrática. Sem ela, o que será a democracia: apenas eleições políticas? Escolher os governantes, aprovar as leis são parte muito pequena do que é a vida democrática. Se a democracia é liberdade, quer dizer que ilumina a vida íntima, pessoal, afetiva. A cultura abre a porta de imaginários que, por sua vez, constroem novas vidas. O menino confinado entre vacas e cavalos que se descobre homossexual, o favelado que percebe seu dom para a música, estão abrindo novos rumos para si mesmos.
Por isso a cultura tem um papel-chave na vida democrática. Sem ela, o que será a democracia: apenas eleições políticas? Escolher os governantes, aprovar as leis são parte muito pequena do que é a vida democrática. Se a democracia é liberdade, quer dizer que ilumina a vida íntima, pessoal, afetiva. A cultura abre a porta de imaginários que, por sua vez, constroem novas vidas. O menino confinado entre vacas e cavalos que se descobre homossexual, o favelado que percebe seu dom para a música, estão abrindo novos rumos para si mesmos.
Aqui entram outras eleições – no sentido exato que a palavra tem e que quer dizer, simplesmente, "escolhas". Podemos escolher melhor, se formos cultos. Mas a palavra "cultos" está tão gasta que parece significar quem tem um cabedal, um estoque de informações. Não é isso. Cultura é poder de transformar. A criança que, assistindo à Flauta mágica no filme de Ingmar Bergmann, vai-se deslumbrando a cada episódio novo tem uma vivência cultural mais rica do que o melômano que sabe distinguir cada soprano que aparece e seus matizes.
Evidentemente há um espaço que é dos criadores e dos críticos. Mas não é no território deles que se dá o acesso à cultura, sua democratização, seu papel emancipador. É claro que toda organização da cultura, desde as secretarias de Estado até os patrocinadores privados, deve apoiar a criação, a novidade, a preservação. Mas estas são condições para algo que é o cerne do cultural, e que está na recepção. Uma recepção, por sinal, que não é passiva, mas se constitui numa apropriação da obra. Até os erros (como quando a personagem vivida por Melina Mercouri, em Nunca aos domingos, acha que as tragédias gregas acabam... bem) fazem parte dessa riqueza receptiva, pela qual o espectador também se torna um tanto criador.
Algumas obras notáveis se fizeram sobre esse encontro da arte com o principiante. Um filme cubano dos anos 60 mostra a primeira vez que se mostra uma película para uma aldeia que nunca viu uma antes. Godard, em Tempos de guerra, tem uma cena com um rapaz que vai olhar o que está acontecendo (acha ele!) atrás da tela. Cinema Paradiso toca no mesmo tema. Essas ingenuidades são, às vezes, engenhosidades. Elas podem contribuir com algo novo. O olhar culto pode estar viciado; precisamos, constantemente, do confronto com percepções diferentes.
Evidentemente há um espaço que é dos criadores e dos críticos. Mas não é no território deles que se dá o acesso à cultura, sua democratização, seu papel emancipador. É claro que toda organização da cultura, desde as secretarias de Estado até os patrocinadores privados, deve apoiar a criação, a novidade, a preservação. Mas estas são condições para algo que é o cerne do cultural, e que está na recepção. Uma recepção, por sinal, que não é passiva, mas se constitui numa apropriação da obra. Até os erros (como quando a personagem vivida por Melina Mercouri, em Nunca aos domingos, acha que as tragédias gregas acabam... bem) fazem parte dessa riqueza receptiva, pela qual o espectador também se torna um tanto criador.
Algumas obras notáveis se fizeram sobre esse encontro da arte com o principiante. Um filme cubano dos anos 60 mostra a primeira vez que se mostra uma película para uma aldeia que nunca viu uma antes. Godard, em Tempos de guerra, tem uma cena com um rapaz que vai olhar o que está acontecendo (acha ele!) atrás da tela. Cinema Paradiso toca no mesmo tema. Essas ingenuidades são, às vezes, engenhosidades. Elas podem contribuir com algo novo. O olhar culto pode estar viciado; precisamos, constantemente, do confronto com percepções diferentes.
Como promover então a democratização cultural? Não é apenas levando mais gente a atividades culturais. É assegurando que essas experiências ampliem seus horizontes. É descobrindo novas vocações, que podem até se converter em profissão ou se manter como hobbies, pouco importa – mas que agreguem sentido às vidas. Porque nosso tempo não suporta a monotonia e ao mesmo tempo a reproduz sem cessar. Ora, uma das poucas maneiras de sairmos da monotonia que não seja histérica (o desespero por ser célebre, o homem ou mulher que é serial lover, o consumismo sem freios, o workaholism desbragado) é pelo amor ao que se faz.
Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo. Autor, entre outros livros, de Ao leitor sem medo (Ed. UFMG), A sociedade contra o social (Companhia das Letras), O afeto autoritário (Ateliê) e A ética na política (Lazuli).
8 comentários:
Me lembrei muito de Paulo Freire ao ler esse texto, no sentido de qe a cultura(na perspectiva aqui abordada) traz a libertação, que é o que ele afirma em relação à leitura e escrita; oferecer ao outro condições de conhecer, se movimentar no mundo e ter uma visão crítica.
Precisamos nos atentar mais a isso, pois (pode se perceber isso no texto) não é a obra em si que amplia o universo cultural, mas as experiências que temos com elas...
É muito bom pensar que podemos "libertar" as pessoas que estão com a gente ao passo que lhes permitimos ter acesso ao outro, ao diferente!
Ana Carolina
Vou complementar com um conceito de cultura que li no livro "Os sete saberes necessários à Educação do Futuro" do Edgar Morin.
"A cultura é constituída pelo conjunto dos saberes, fazeres, regras, normas, proibições, estratégias, crenças, idéias, valores, mitos que se transmite de geração em geração, se reproduz em cada indivíduo, controla a existência da sociedade e mantém a complexidade psicológica e social. Não há sociedade humana, arcaica ou moderna, desprovida de cultura, mas cada cultura é singular. Assim, sempre existe cultura nas culturas, mas a cultura existe apenas por meio das culturas"
É para complementar o texto, que é riquíssimo e tem ocnvergência com o conceito de cultura com que trabalhamos. A cultura como espaço de criação, de conferimento de sentido à existência humana....
Muito muito bom o texto.
Obrigada!
Essa é uma concepção de cultura que se baseia indiscutivelmente na diversidade humana: o que pode ser cultura pra mim, pode não ser para o outro. Pensando na nossa prática e principalmente nas idéias que defendemos, há uma total convergência no plano social, na convivência com aquilo que é diferente e que associado ao meu também diferente, estabelece um novo olhar, um novo movimento no mundo. Achei fantástico o texto.
Esse foi um dos textos que utilizamos no encontro de Cultura como modo de vida do FMV e que vai muito de encontro com as discussões que fazemos a muito tempo sobre o porquê da ampliação do universo cultural ser tão importante e, com certeza, ele é mais um dos embasamentos teóricos para contribuir com a nossa argumentação.
Achei o texto fantástico e, assim como as meninas, ele me remeteu a outros textos, por isso decidi citar logo abaixo alguns trechos, mesmo que alguns deles já sejam bastante conhecidos:
“Fazer arte não significa apenas tocar violão, cavaquinho ou reco-reco: significa expandir-se.” (O teatro como arte marcial – Augusto Boal)
“Mas a verdade é que todas as formas culturais ou todas as "sub-culturas” de
uma sociedade são equivalentes e, em geral, aprofundam algum aspecto importante
que não pode ser esgotado completamente por uma outra "sub-cultura".
O que significa dizer que tanto há cultura no carnaval quanto na procissão e nas festas cívicas, pois que cada uma delas é um código capaz de permitir um julgamento e uma atuação sobre o mundo social no Brasil.” (Você tem cultura? – Roberto da Matta)
“...cultura – piscadela” pode ser assim explicado: todas as pessoas piscam os
olhos. Fazem isso inconsciente e naturalmente. Ninguém se dá conta que pisca,
muito ou pouco. (Aliás, cremos nós, pode ser sinal de maluquice completa
encontrar alguém que conte quantas piscadelas deu durante um dia, por
exemplo). Assim como todos nós piscamos, mas não pensamos nisso, com a
nossa cultura também é assim. Todos a vivem sem se dar conta que seja ou não
cultura. Ela se produz socialmente, mas acontece, naturalmente. Flui, semelhante
às piscadelas. A cultura é algo humano, social, público, visível, perceptível,
notório, mas microscópico.” (Cultura: matéria-prima de Educação e Desenvolvimento – Tião Rocha)
Para quem participou da oficina/palestra ministrada pelo Ênio no II Encontro de Formação de Multiplicadores Voluntários, pôde relacionar o texto ao conceito de ARTE, como exercício de liberdade, essência humana, aquisição e produção do saber, expressão subjetiva e vários outros que ele apresentou de forma espetacular. Parabéns Enito!!!
Mariana
Gostei muito do texto. Dá uma sacudidinha, pois quando a gente acha que está finalmente se apropriando de um conceito, PIMBA!!! Vem alguns autores e dão uma leve desconstruída. Muito legal, o conhecimento está sempre em constante processo de construção. Pode parecer muito pragmático da minha parte, mas inevitavelmente sempre relaciono o que leio com nossa prática, e aí pensei muito na necessidade URGENTE de criarmos ferramentas que de fato mostrem resultados. Medir quantitativamente a ampliação do universo cultural está relativamente fácil, o duro é mostrarmos qualitativamente o que isso provocou nos nossos participantes. A gente chega lá!!!
Bjs! Poli
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